A dependência do Crack não é algo incurável

NELSON VALENTE

A dependência caracteriza-se não só pela incapacidade de se interromper o uso no momento desejado e a necessidade de se usarem doses cada vez maiores para obter os mesmos resultados, como pelos efeitos físicos e psíquicos causados pela abstinência.

Sabe-se que o crack causa dependência muito rápida e intensa e, por ser droga ilícita, distribuída em um cenário de marginalidade e violência, geralmente se associa a um contexto de extrema vulnerabilidade social.

A gravidade e a intensidade dos problemas gerados pelo consumo da droga não devem ser vistos, no entanto, como sinônimos de uma situação irreversível para os usuários.

A dependência do crack não é algo incurável. Ao contrário, há resultados extremamente positivos entre os que se submetem a tratamento.

O importante é que a intervenção não tenha olhos apenas para o uso da droga, mas para a vida dos sujeitos afetados, sua marginalização e vulnerabilidade.

A Estratégia de Saúde da Família é o que se tem de melhor para alcançar o usuário da droga. Mas é preciso capacitar o profissional de saúde e acabar com a crença de que o tratamento somente pode ser feito em clínica especializada.

No Brasil, os modelos tradicionais de tratamento, com longas internações, conduzidos por instituições religiosas ou comunidades terapêuticas, são os mais usados pela sociedade. Em geral, são práticas verticalizadas e distanciadas e, por isso, muitos tratamentos não dão certo.

Não vou descartar os modelos tradicionais, mas acham que não resolvem o problema totalmente.

Não há como colocar todos os usuários do crack numa instituição. Esses locais de tratamento deveriam servir de retaguarda. Precisamos de vários modelos e saber onde cada usuário se adapta melhor.

O desafio é tão amplo e espinhoso, que precisamos unir os esforços de todos.

 

Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor.

Fonte: Diário do Poder.