A homeopatia é uma farsa criminosa

O autor  do texto abaixo, Beny Spira,  é professor livre docente pela USP, com doutorado em genética molecular pela Universidade de Tel Aviv

Venho expressar a minha surpresa e indignação com a publicação da reportagem “Ensino de homeopatia veterinária é deficiente, afirma pesquisadora” no Jornal da USP. É lastimável que essa entidade representativa da Universidade de São Paulo seja porta-voz de pseudociência (fake science). A homeopatia, apesar de ter defensores na classe médica, é uma das mais manjadas pseudociências.
Poder-se-ia argumentar que o Jornal da USP, democrático como é, deveria estar aberto a diferentes opiniões. Porém, a divulgação da homeopatia contribui para a difusão de um conhecimento errado, arcaico e perigoso. A ciência baseia-se na busca pela verdade, não em opiniões. A ciência não é democrática. Se a maioria das pessoas decidir que a Terra é plana, isso não fará com que ela deixe de ser uma esfera imperfeita. Da mesma forma, não votamos para decidir se um antibiótico é eficiente para o tratamento de uma determinada doença infecciosa; os testes clínicos dirão se ele funciona ou não. A homeopatia é considerada, pela grande maioria dos cientistas, uma pseudociência, e há diversos bons motivos para isso.

Por que a homeopatia é errada, arcaica e perigosa?

Errada, porque o princípio homeopático é baseado em duas premissas falsas: (1) o princípio dos similares e (2) a lei dos infinitesimais. O primeiro prega a máxima “Simila similibus curentur”, que significa ‘similar cura similar’. Ou seja, uma determinada enfermidade pode ser curada com alguma substância que cause o mesmo sintoma. Um exemplo: resfriados podem ser tratados com cebola (Allium cepa), pois a cebola, ao ser picada, causa sintomas parecidos com os do resfriado (coriza, irritação dos olhos e outros). Então, se o paciente tomar um remédio baseado em Allium cepa por uma semana, ficará curado do resfriado. Que maravilha! Imagine o que acontecerá se o paciente não tomar o remédio cebolístico por uma semana. Você adivinhou: o resfriado passou assim mesmo!

A homeopatia, apesar de ter defensores na classe médica, é uma das mais manjadas pseudociências

Portanto, o princípio de “similar cura similar” é interessante, mas absolutamente errado, pois carece de evidências científicas. Mais sobre evidências científicas abaixo.

Se o primeiro princípio da homeopatia é equivocado, o que dizer, então, sobre o segundo princípio? Para responder essa pergunta, vamos parafrasear o grande físico Wolfgang Pauli, que costumava dizer: ”É tão absurdo que nem errado é”. A ‘lei dos infinitesimais’ estabelece que, quanto maior a diluição de um medicamento, maior a sua capacidade curadora! Se você não entendeu, não se preocupe. É tão contrário à lógica e às ciências químicas e farmacêuticas, que a nossa cabeça, dominada pela ’hegemônica ciência racional’, não consegue entender a grande sabedoria que está por trás desse princípio!

Explico com mais um exemplo: na homeopatia, trióxido de arsênico é recomendado para o tratamento de diversos males, entre eles asma, resfriado, diarreia etc. Mas espere: arsênico é extremamente tóxico, além de ser carcinogênico. Como pode, então, ser utilizado para a cura de qualquer coisa? Aí vem a “grandiosidade” do segundo princípio da homeopatia: basta diluí-lo que o efeito tóxico desaparece! Mas o efeito curativo não somente permanece na solução diluída, como tem seu potencial aumentado! Por isso, “remédios” homeopáticos são normalmente diluídos 10^30 vezes ou mais. Há, porém, um pequeno problema: o químico Amedeo Avogadro, do século XIX, demonstrou que 1 mol de uma solução de qualquer composto contém 6 x 1023 (o número 6 seguido de 23 zeros) unidades desse composto. Ou seja, um mol de uma solução de trióxido de arsênico contem 6 x 1023 moléculas. Uma vez que a solubilidade máxima de trióxido de arsênico em água é de apenas 0,1 mol/litro, ao diluir essa solução 1030 vezes, adivinhem quantas moléculas de trióxido de arsênico restarão no composto diluído? Isso mesmo, nenhuma! Foi como diluir uma gota no oceano! Sendo assim, como pode um remédio homeopático curar uma enfermidade? A resposta óbvia é que não pode. Não há nenhum mecanismo que explique como uma solução homeopática ultra-diluída possa ter qualquer efeito curativo.

Bom, mas você ainda pode estar pensando que a nossa pobre “ciência ocidental hegemônica” ainda não descobriu o mecanismo de ação dos compostos homeopáticos, mas que funciona, funciona! Certo?

Se o primeiro princípio da homeopatia é equivocado, o que dizer, então, sobre o segundo princípio? Para responder essa pergunta, vamos parafrasear o grande físico Wolfgang Pauli, que costumava dizer: “É tão absurdo que nem errado é”

Novamente, sinto desapontá-lo. Apesar de o artigo ter afirmado que a “homeopatia não é estudada na universidade”, milhares de estudos já foram realizados, em todos os cantos do planeta. A grande maioria dos estudos clínicos devidamente bem-conduzidos revelou que o tratamento homeopático equivale ao tratamento com placebo, ou seja, não foi detectado nenhum efeito curativo significativo de qualquer composto homeopático a não ser aquele causado por auto-sugestão (veja a meta-análise escrita por Shang et al. 2005; o editorial da Lancet nesse mesmo fascículo anunciando o ‘fim da homeopatia’: The Lancet 2005; ou ainda o documento: ‘Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions’ do Governo Australiano, publicado em 2015). Por esse motivo, alguns países (que levam a ciência a sério), tais como o Reino Unido, estão em vias de banir a homeopatia do rol de medicamentos prescritos pelo sistema nacional de saúde daquele país (NHS).

Por que a homeopatia é arcaica?

Uma das principais características da ciência é o seu progresso. Todos os dias, milhares de artigos científicos são publicados. Os bons artigos adicionam conhecimento relevante ao edifício da ciência, outros trazem evidências novas, e até mesmo retificam concepções científicas mais antigas. Os livros-texto das diversas áreas da ciência são frequentemente reeditados, não somente porque as editoras querem vender mais livros, mas porque conceitos importantes são adicionados ou modificados. A homeopatia não evoluiu desde o século XIX, época da sua fundação. O principal livro da homeopatia, Materia Medica, foi escrito há 200 anos!

Por que a homeopatia é perigosa?

Muitas doenças são potencialmente debilitantes ou fatais. A medicina convencional, baseada em evidências científicas, busca administrar o melhor tratamento, o qual é apontado por testes clínicos e pré-clínicos. Por exemplo, a pneumonia bacteriana, se não for tratada, pode levar à morte; mas, graças aos antibióticos, a infecção pode ser contida, e o paciente, poupado. Imagine se um paciente com pneumonia tratar-se exclusivamente com compostos homeopáticos, que, como já vimos, não têm poder curador além do efeito placebo?

Para doenças benignas ou de baixa gravidade, o tratamento homeopático não causará dano maior; mas, se a enfermidade for grave, o resultado poderá ser fatal.”

Referências

Shang, Aijing, et al. “Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy.” The Lancet 366.9487 (2005): 726-732

The Lancet. “The end of homoeopathy.” The Lancet 366.9487 (2005): 690.

Evidence on the effectiveness of homeopathy for treating health conditions. 2015. https://www.nhmrc.gov.au/_files_nhmrc/publications/attachments/cam02a_information_paper.pdf

TEXTO PUBLICADO NO JORNAL DA USP

 

OBS:

Pesquisas científicas têm mostrado que os remédios homeopáticos não são eficazes[6] e seu mecanismo de funcionamento é implausível.[7][8][9][10]consenso na comunidade médica e científica internacional de que a homeopatia é uma pseudociência[11][12][13][14]e charlatanismo.[15] Embora alguns estudos individuais aleguem resultados positivos e sugiram maiores estudos,[16][17] numerosos estudos indicam sistematicamente que homeopatia não é mais efetiva que o placebo.[7][8][18][19]

A Organização Mundial de Saúde (OMS) aconselha os seus estados membros a regular a Homeopatia de forma a garantir a inocuidade dos produtos que são comercializados sem prescrição médica. A OMS reconhece que, apesar de se verificar um aumento da utilização de produtos homeopáticos, são poucos os estados com regulamentação aplicável. Segundo esta organização, é necessário contrariar a ideia de que não existem riscos na administração de produtos homeopáticos devido às altas diluições.[20] O documento de Estratégia da OMS sobre medicina tradicional 2002 – 2005 “aborda as questões de segurança, qualidade e eficácia da medicina tradicional (MT) e medicina complementar e alternativa (MCA). O principal objectivo destas estratégias é desenvolver um guia técnico de controlo de qualidade e segurança para produtos de MT/MCA.”[20]

Os defensores da homeopatia referem-se regularmente aos documentos produzidos pela Organização Mundial de Saúde afirmando que esta promove a implantação desta prática em todos os sistemas nacionais de saúde.[21][22][23][24][25][26][27] Todavia, a OMS condena o uso da homeopatia contra doenças graves como malária, tuberculose, aids, gripe e diarreia infantil.[28] No Brasil, é considerada como especialidade médica desde 1980, reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, tendo sido incluída no Sistema Único de Saúde (SUS) em 2006.[29] Em muitos países não é considerada especialidade médica.[20] Em 2015 o National Health and Medical Research Council (NHMRC) da Austrália declarou não existirem condições de saúde tratáveis com a homeopatia e que o uso da homeopatia pode colocar a saúde das pessoas em risco( WIKIPÉDIA)