BRASIL REAL – CARTAS DE CONJUNTURA ITV

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 – Nº 130 – DEZEMBRO/2015

O Brasil alijado do mundo

Síntese: Sob o governo do PT, a economia do Brasil caminhou para o isolamento e agora o país paga o preço pela escolha, na forma de recessão, inflação e, também, do encolhimento do nosso comércio exterior. Nossas exportações caíram a menos de 1% do total mundial e a corrente de comércio do país voltou a níveis pré-crise de 2008. Amarrados ao Mercosul, perdemos oportunidade de inserção nas cadeias globais de produção. Com dois rebaixamentos de rating, em função da piora nos fundamentos da economia nacional, o país também começa a ter dificuldade de acesso ao mercado de crédito. Nunca as reformas estruturais foram tão urgentes.

Desde 2003, com a chegada do PT ao poder, o Brasil tem optado pelo isolamento em relação ao resto do mundo. O comércio internacional, que poderia ser um caminho seguro para a retomada do crescimento, virou realidade distante. O Brasil fechou fronteiras a novos acordos bilaterais, atou-se ao Mercosul numa estratégia fracassada, optou por uma política externa de viés ideológico e deu as costas aos parceiros globais mais relevantes.

O descaso com o comércio exterior agora cobra preço elevado. O país vem perdendo espaço no mercado internacional a cada ano, vendo sua participação cair de 1,4% em 2011 para 1,19% em 2014. Tudo caminha para que a parcela brasileira despenque abaixo de 1%, voltando aos níveis do início do século. Com o PT, o Brasil, infelizmente, está se transformando num anão do comércio mundial.

Embora seja (por enquanto) a sétima maior economia do mundo, somos apenas o 25º maior exportador global, três posições abaixo do apurado em 2013. Nossas exportações, segundo o Banco Mundial, representam somente 11,5% do PIB do país – sexto menor percentual entre 150 nações pesquisadas.

Pior: a qualidade da nossa pauta de exportação tem se deteriorado bastante, em termos de valor agregado. A participação de produtos manufaturados, que representavam 53% das vendas ao exterior em 2005, atualmente não chega a 35%. É como se retrocedêssemos à condição de uma economia primário-exportadora.

Em 2015, a balança comercial brasileira voltou ao azul. Mas isso foi fruto tanto da recessão quanto da queda acentuada das importações, e não de aumento das exportações. Entre janeiro e dezembro, os embarques declinaram 15% e as aquisições caíram 25% em relação a 2014.

A fragilidade do nosso comércio exterior fica mais bem evidenciada pelo desempenho da corrente de comércio (soma de exportações e importações). O indicador, que reflete o vigor da atividade econômica num país, atingiu US$ 362 bilhões de janeiro a dezembro, com queda de 20% em relação ao ano anterior. Voltamos a níveis pré-crise mundial de 2008, resultado de políticas que viraram as costas do Brasil para o mundo.

Política isolacionista
Um dos grandes obstáculos à expansão das exportações é a ausência de acordos comerciais com grandes mercados. Na era PT, a política externa brasileira concentrou-se nas chamadas relações Sul-Sul, priorizando países africanos e vizinhos sul-americanos de orientação bolivariana. Ficamos cada vez mais apartados das grandes cadeias mundiais de produção. Nos últimos 12 anos, só quatro acordos comerciais foram firmados pelo Brasil: com Israel, Egito, Palestina e África Meridional.

Segundo estudo da CNI, atualmente há pelo menos 30 acordos relacionados a comércio e investimentos em fase de aprovação no Congresso ou pendentes de promulgação pela Presidência da República. A demora excessiva gera perdas para investidores, que pagam o preço da burocracia e da gestão descoordenada da política externa do país.

Participação do Brasil no comércio mundial (em %)


Fonte: Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB). *Estimativa

Enquanto isso, países vizinhos lançaram a Aliança do Pacífico, um mercado de US$ 2 trilhões, e os EUA, além de negociar uma aliança com os europeus, fecharam o Acordo Transpacífico (TPP), que reunirá 40% do PIB mundial. Como consequência, os produtos brasileiros devem ficar ainda menos competitivos. Estudo da FGV mostra que o TPP afetará 35% da pauta brasileira de produtos manufaturados, podendo derrubar nossas exportações em até 2,7%.

Enquanto a maior parte dos países busca se agregar, o Brasil manteve-se atado ao Mercosul. Conduzido de forma ideológica nos últimos anos, o bloco é hoje incapaz de produzir resultados relevantes para o país. A corrente de comércio entre o Brasil e as demais economias da sub-região encolheu 35% entre 2011 e 2015, de US$ 47 bilhões para US$ 30 bilhões. Para completar, há 15 anos a negociação do acordo de livre comércio com a União Europeia não sai do lugar.

Somos hoje o país mais fechado para o comércio exterior entre todas as nações do G-20, segundo levantamento da Câmara de Comércio Internacional. Não à toa, no último ano o Brasil despencou 18 posições no ranking global de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial e agora ocupa modesto 75° lugar entre 140 países – nossa pior colocação na série histórica.

O produto brasileiro tem perdido competitividade no mercado exterior. Isolada das cadeias globais de produção, a indústria nacional viu sua participação no PIB reduzir-se de cerca de 23% em 1980 para menos de 10% em 2015. Segundo a CNI, 79% das empresas do país têm problemas para exportar devido a entraves burocráticos tributários e alfandegários. Medidas de facilitação de comércio poderiam elevar o PIB brasileiro em 1,2%, mas não se enxerga no governo do PT qualquer reforma modernizante saindo do papel.

Rebaixado, Brasil vira ‘lixo’
Infelizmente, o Brasil também tem andado para trás no mercado internacional de crédito. Pouco mais de três meses após o rebaixamento do rating do país pela Standard & Poor’s, em setembro, outra agência, a Fitch, reduziu a nota brasileira em função da piora nos fundamentos da economia e nos indicadores financeiros do país. O resultado chancela o mau humor da economia mundial com o Brasil, especialmente com a sequência de más notícias brotadas de múltiplas crises – de gestão, política, ética, econômica e social.

Apartado do mundo das finanças internacionais, o Brasil terá mais dificuldade para conseguir empréstimos no exterior, obrigado a pagar juros mais altos. Os entraves já estão aparecendo: desde julho passado, não houve emissões de empresas brasileiras no exterior e as captações caíram mais de 80% até novembro. O fluxo de investimentos no país também tende a diminuir. O investimento direto estrangeiro deve ter recuado para a casa dos US$ 50 bilhões, abaixo dos US$ 62 bilhões de 2014. Para piorar, a alta dos juros pelo banco central americano deve estimular a debandada de capitais do país.

O quadro de más notícias econômicas se completa com a recessão mais longeva dos últimos 80 anos, inflação de dois dígitos, desemprego nas alturas, renda do trabalhador no menor nível desde 2003, dívida bruta próxima de 70% do PIB e déficit público recorde. O fundo do poço parece não ter fim.

Um novo rumo
A falta de rumo da política comercial brasileira é preocupante. Não é possível continuar na posição de mero coadjuvante nas relações mundiais. O Brasil precisa integrar-se de maneira mais efetiva às cadeias globais de produção. Buscar novos – e significativos – mercados, dinamizar a pauta de exportações e combater o custo Brasil são medidas essenciais para o país reconquistar o espaço que é capaz de ocupar no cenário internacional. A receita do sucesso é uma política externa ativa e a agressividade comercial, e não a diplomacia ideológica que vimos ser praticada nos últimos anos.

Felizmente, no nosso entorno os ventos da mudança já começaram a soprar e tendem a arrastar o Brasil também a novas direções. As vitórias de Mauricio Macri na Argentina e das forças oposicionistas na Venezuela indicam o começo da derrocada do populismo na América Latina. Abrem, ainda, perspectivas de maior e mais dinâmico intercâmbio comercial do continente com o resto do mundo, assim como novas orientações para o Mercosul. Antes, porém, será preciso fazer o dever de casa, após o país ser considerado “lixo” pelo mercado financeiro global. Ou o Brasil realiza as reformas estruturais que vem protelando há tempos ou permanecerá alijado do resto do mundo.

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