Tragédia em Mariana-MG – Os verdadeiros culpados serão punidos?

 

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Artigo de publicaçao exclusiva de nosso site.
Autor: Luiz Felipe Lehman, ex- chefe da Divisão de Recursos Humanos da Samarco, no inicio da criação da empresa, quando ela começou a produção.

Desde a tragedia de Mariana desejava me manifestar neste espaço. Esta tragédia trouxe um sentimento de muita tristeza e desapontamento. Uma grande tristeza pelas vidas perdidas e pela destruição e prejuízos a milhares de pessoas inocentes e principalmente ao meio ambiente.

Desapontamento porque a Samarco sempre foi uma empresa especial para mim. Foi lá que comecei a minha carreira na área de Recursos Humanos por volta de 1975. Vi com esta empresa nascer, e tive muito orgulho de poder dizer que cooperei com o nascimento de uma empresa, que na época dominava o estado da arte em mineração.

Hoje fico muito triste ao ver o grande desastre ambiental provocado por ela. Não é a mesma coisa que um pai que fica desapontado ao ver o filho cometer um crime, mas é nesta linha. Minha vida profissional se desenvolveu em grande parte em empresas de mineração, e tenho críticas a fazer a nossa legislação ambiental.

Infelizmente a tragedia do rompimento da barragem de Mariana não foi o primeiro, e se mudanças em nossa legislação e comportamento outros vão ocorrer com consequências imprevisíveis. Só para citar dois casos: Em 2003 uma barragem se rompeu em Cataguses Ele gerou mortandade de peixes, a interrupção do abastecimento de água em vários municípios dos estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro por cerca de dez dias e causou prejuízos em pequenas propriedades rurais situadas às margens do Ribeirão do Cágado, em uma extensão de aproximadamente 106 hectares, de acordo com o Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

Em 10 de janeiro de 2007 houve o rompimento da barragem São Francisco, na zona rural de Miraí, onde havia concentração de resíduos de bauxita. No entanto, o rompimento causou danos ambientais como inundação de trechos de áreas agricultáveis, mortandade de peixes e desabastecimento de água na vizinha Muriaé, na cidade de Laje do Muriaé (RJ) e nos distritos de Retiro e Comendador Venâncio, em Itaperuna (RJ). Meses antes, a barragem havia apresentado vazamento, mas foi controlado.
Mas não aprendemos nada com estes desastres. Será que vamos aprender com esta tragédia de Mariana?

O governo multa as empresas pelos crimes ambientais, pode até obriga-las a encerrar suas atividades. Mas e os verdadeiros responsáveis pelo desastre? O que acontece com eles? O que acontece com os responsáveis pelos cálculos de engenharia? O que acontece com os responsáveis pela execução das obras, feitas de forma irresponsável e incompetente? O que acontece com o presidente da empresa que é o responsável final por tudo o que acontece?
Nada acontece. Parece que nos esquecemos que a empresa não é um ser com vida própria. A empresa é a soma dos seres humanos que nela trabalham.

Encerram-se as operações da Samarco. Quem será prejudicado? Os cinco mil funcionários diretos e outros tantos indiretos que ficarão sem o seu ganha pão. O município de Mariana que ficará privado de 60% de seus recursos financeiros. E o que acontecerá com os verdadeiros responsáveis pela tragédia? Ficarão impunes, livres para cometer os mesmos erros em outros lugares. O que vai acontecer com os responsáveis pelas inspeções que os órgãos ambientais deveriam estar fazendo? Também continuarão impunes.

Nossa legislação tem que mudar. Os dirigentes das empresas devem ser responsabilizados pelos crimes ambientais. Estes dirigentes e responsáveis tem que ser responsabilizados criminalmente pelos crimes ambientais praticados na empresa pela qual são responsáveis. Só assim poderemos ter mais responsabilidade com a segurança das operações. Só assim poderemos ter a certeza que alguém vai responder criminalmente pela destruição de vidas e do meio ambiente. Não adianta multar a empresa se os seus diretores e responsáveis não responderem criminalmente por seus atos e decisões. As multas são pagas e a irresponsabilidade continua.

Luiz Felipe Lehman

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