Jorge Roriz – Jornalismo de Excelência

Bolsonaro e a honestidade : um mito que não para em pé

Jair Bolsonaro mentiu em rede nacional ao dizer, durante entrevista ao Jornal Nacional, que o livro “Aparelho Sexual e Cia.” fazia parte do chamado “kit gay” e era distribuído nas bibliotecas das escolas públicas.
A afirmação foi desmentida pela Fundação Biblioteca Nacional, pelo Ministério da Educação e pela editora que publicou o infanto-juvenil.
No Roda Viva, o candidato disse que não dava para enfrentar com flores bandidos que atiram de fuzil.

A frase, de alto impacto eleitoral, esconde uma pergunta fundamental: quando foi que alguém usou flores no combate a criminosos ou suspeitos no Brasil?

A promessa de acabar com a suposta benevolência do Estado em relação ao crime esconde o fato de que o Brasil é um país onde a população carcerária saltou de 239 mil para 726 mil entre 2003 e 2016. Em 2017, o país registrou 5.012 mortes por policiais.

Chama-se sofisma o argumento com ilusão da verdade para chegar a uma conclusão inconsistente, incorreta e deliberadamente enganosa.
O sofisma é a pedra-angular de toda estrutura discursiva em torno de Bolsonaro.

Se o nome não agradar, pode chamar de desonestidade. Um sujeito é desonesto com os fatos e a realidade quando coloca sob suspeita o resultado de uma eleição que sequer terminou. Ou quando promete metralhar adversários num dia e, no outro, jura que jamais defendeu a violência nem espalhou o ódio.

Quando atacado covardemente em um ato de campanha, seus apoiadores correram nas redes para espalhar boatos a respeito das motivações políticas do agressor. Em nenhum momento foram desautorizados, como não foram desautorizados os irresponsáveis que perseguem, constrangem e ameaçam jornalistas que ousam, vejam só, fazer jornalismo durante a campanha.
Hackers invadiram uma página de mulheres no Facebook mobilizadas contra ele.
Em nenhum momento ele se esforçou para ao menos minimizar a pecha de antidemocrático e condenar a ação.
Nada que cause espanto a quem evitou condenar o assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro, seu reduto eleitoral, porque sua opinião seria “polêmica”.

O possível envolvimento de milícias no crime, como apontam as investigações, não recebeu qualquer consideração. Pudera: em 2008, quando já havia fartos indícios de participação de milicianos em crimes de tortura, extorsão e tráfico de drogas, Bolsonaro disse em uma entrevista à BBC: “Elas oferecem segurança e, desta forma, conseguem manter a ordem e a disciplina nas comunidades. É o que se chama de milícia. O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legalizá-las”.

Entre as candidaturas que hoje disputam a Presidência é possível encontrar inúmeras contradições. A campanha de Bolsonaro, por sua vez, não é movida pela contradição. É o puro creme da mentira.

A estratégia é apresentar espantalhos e desenhar o caos para vender soluções simples com a promessa de botar ordem na casa e limpar a corrupção no país – desde que ninguém mencione que até 2015 Bolsonaro integrou as fileiras do PP, partido de Maluf que tem mais filiados investigados pela Lava Jato.

A realidade é que o candidato não tem comando sequer sobre o economista que pretende nomear ministro da Fazenda nem sobre seu vice, um general que na sua ausência demonstra todo seu conhecimento sobre sociologia ao atribuir os males do país à “indolência” do índio e à “malandragem” do negro; sobre o sistema jurídico ao comunicar o desejo de mudar a Constituição sem a participação dos eleitos pelo povo; sobre economia e timming político ao dizer que 13º salário é “jabuticaba”; e sobre democracia ao explicar como é possível sabotar um governo eleito com um autogolpe.

Como o bombeiro Didi, que corre com o extintor para apagar o incêndio provocado pelo Sargento Pincel (obrigado, internet), Bolsonaro passa a tarde desmentindo os supostos mal-entendidos causados por aliados pela manhã. A ausência de ordem sobre os comandados faz sentido; caso contrário, seria o primeiro caso da história em que um general obedece um capitão.
Na reta final da campanha, jornalistas tiveram acesso a documentos que, mais do que nunca, colocam o deputado sob suspeita. No início da semana, a Folha de S.Paulo revelou a existência de um telegrama na qual a ex-companheira de Bolsonaro revela que ele o ameaçou de morte.

Ela negou a história, mas o documento existe e os relatos foram confirmados por quem conviveu com a mulher na Noruega, para onde pediu asilo no início da década.

Dias depois, a revista Veja teve acesso a um processo de 500 páginas e contou que a separação litigiosa do casal envolveu acusações de furto de cofre, ocultação de bens e relatos de “comportamento explosivo” e “desmedida agressividade” do candidato.

A descrição parece confirmar outro relato, a de que o hoje presidenciável é um sujeito marcado pelo “tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”.

Não, a descrição não faz parte de alguma publicação de cores bolivarianas em defesa do politicamente correto, mas do coronel Carlos Alfredo Pellegrino, superior de Bolsonaro nos anos 1980.

Ouvido durante um processo no Conselho de Justificação do Exército, no qual Bolsonaro era acusado de indisciplina e deslealdade, Pellegrino descreveu o subordinado como alguém com “grande aspiração em poder desfrutar das comodidades que uma fortuna pudesse proporcionar”.

Anos depois, a resposta de Bolsonaro, já um político profissional, a questionamentos sobre sua conturbada passagem pelo Exército ou enriquecimento pessoal parece confirmar o relato. Num caso, mandou um repórter catar coquinho. Em outro, disse a uma jornalista que usava o dinheiro do auxílio-moradia, mesmo tendo casa na capital, para “comer gente”.

No documento revelado pela Veja, Ana Cristina Siqueira Valle, hoje candidata a deputada com o nome do ex-marido, acusou o deputado de ocultar milhões de reais em patrimônio pessoal na prestação de contas à Justiça Eleitoral em 2006.

No processo, ela acusava o ex-marido de furtar US$ 30 mil e mais R$ 800 mil, entre joias e dinheiro vivo, de um cofre mantido por ela em uma agência bancária do Rio. A acuação está registrada em um Boletim de Ocorrência.

A história é estranha e promete bagunçar ainda mais o coreto da campanha – e das pessoas que estavam dispostas a ir para a guerra em nome do “único candidato honesto que pode salvar o Brasil”, como cansamos de ler ao longo da eleição.

Para Bolsonaro, a boa notícia é que ele ainda vive em um Estado democrático de Direito: enquanto o eleitor se questiona como alguém pode juntar tantos bens em um cofre apenas com salário de deputado e aposentadoria de militar, ele poderá apresentar sua defesa, para a opinião pública e eventualmente para a Justiça, antes de ser condenado previamente.

MATHEUS PICHONELI/YHAOO