Cine Teatro Jandaia – A história abandonada


CINE TEATRO JANDAIA. PATRIMÔNIO CULTURAL ESQUECIDO

JORGE RORIZ

O cine Jandaia não é apenas um entre os muitos cinemas antigos da cidade de Salvador que ficou em decadência É um marco da cultura Nacional.
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Cine Teatro Jandaia, uma das casas de espetáculos artísticos e culturais mais importantes da América do sul na década de 60, está em total decadência. A foi entrada fechada por tijolos pelos comerciantes do local, para evitar a invasão de marginais, tendo assim sua história ocultada. O Cine que exibiu espetáculos de música lírica, peças de Companhias nacionais e internacionais além de lançamentos de filmes clássicos, começou a entrar em decadência no final dos anos 70, passando a exibir filmes pornográficos e de lutas marciais. O prédio em ruínas correndo sério risco de desabamento.

Criando inicialmente de forma modesta, com cobertura de zinco, O Jandaia foi inaugurado em 09 de março de 1911 exibindo os filmes mudos “ O filho de Nelson”, “A primeira namorada Muggys” e “ Um Drama no Moinho”. “Me recordo que para imitar o som do trovão ou das tempestades um homem sacudia uma folha de zinco e por trás da tela. Tinha uma pequena orquestra que fazia música de fundo e tocava nos intervalos”, lembra Everaldo Santos, funcionário aposentado dos Correios e antigo freqüentador do cinema.

Em 03 de julho de 1931, após o proprietário Milton Oliveira comprar duas casas ao lado para ampliação, o cinema foi reformado e aberto ao público com capacidade para 2.200 pessoas, ocupando uma área de 1.200 m2 e com iluminação de 2.500 lâmpadas. Sendo conhecido como “O Palácio dos artistas”, atraia os mais renomados artistas das décadas de 30 a 60 inclusive foi o primeiro cinema do nordeste a adquirir aparelhos para a exibição de filmes sonoros.
Nomes como Carmem Miranda, Pablo Neruda, Raul Roulien ( ator de filmes da Fox), o pianista Guimar Novaes, Procópio Ferreira, Zoraide Aranha e Bidu Saião ( cantora que era conhecida como o Rouxinol Brasileiro) Vicente Celestino e Lamartine Babo, fizeram apresentações no famoso cinema. Serviu também de palco para escolha de misses do Carnaval de Salvador ; lutas de Box, teatro musicado e exibições da Companhia Lírica da Bahia.

Ivone Oliveira, filha do fundador, declara com emoção que a vida do cine Jandaia se confunde com a própria história do cinema da Bahia. Recorda inclusive que quando Glauber Rocha dava os primeiros passos como diretor sob as restrições de muitos, recebeu apoio do cine Jandaia que exibiu os seus primeiros filmes que causava impacto. Lembra também o papel do Jandaia em prol do cinema nacional que sempre teve grande acolhida, seu pai inclusive, recebeu homenagens dos produtores e exibidores nacionais como forma de agradecimento.

O local era o point da alta sociedade baiana e lá as senhoras exibindo as vestimentas de última moda encontravam seus namorados e futuros maridos. O cinema inovou também ao permitir a entrada de mulheres gratuitamente desde que acompanhadas. As mulheres que não tinham companhia para entrar ficavam na porta e já entravam com um novo pretendente que arranjavam na hora.
Em 1979, os cinemas de Salvador foram comprados por grandes exibidores nacionais sendo assim criadas cadeias de cinemas, monopolizando as exibições dos filmes que passaram a ser exibidos em rede. O Jandaia permaneceu independente .
Com o aumento da concorrência, o surgimento de cinemas em shopings, e o falecimento de Milton Oliveira, proprietário e fundador, o Cine Jandaia passou a ser administrado por Ivone Oliveira. No inicio dos anos 80, entrou em decadência e para se manter passou a ser mero exibidor de filmes pornográficos e de lutas marciais até ser fechado definitivamente em 1993 tendo como última exibição, dois filmes pornográficos.
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Atualmente o cinema tem um morador. Antonio Carlos Machado, ( o Bily), 52 anos, guardador de carros e poeta nas horas vagas. Ele hoje escreve suas poesias no muro do antigo cinema. Bily era morador do Maciel e recebeu uma indenização por ter seu imóvel desapropriado na reforma do Pelourinho. Com o dinheiro recebido, pagava aluguel numa casa alugada no bairro da Saúde e trabalhava como guardador de carros na Ladeira do Alvo. Com o tempo o dinheiro foi acabando e Bily se transformou em morador de rua. Um dia por sugestão de um amigo, e após alguns pivetes terem arrombado o prédio do cinema abandonado, Bily mandou soldar uma grade no muro do cinema. Usando corrente e cadeado passou a dormir dentro do prédio do cinema.

Quando morava no Maciel no auge do cinema, Bily usava um recurso para assistir os filmes do cinema de graça. Aproveitava o momento em que eram abertas as janelas do cinema para ventilação entre o fim de uma sessão e outra, subia nas paredes do cinema e pulava a janelas. “Quando eu entrava já existiam algumas pessoas sentadas esperando a próxima sessão começar e os lanterninha (empregados do cinema que usavam lanternas para ajudar os clientes entrarem no escuro do cinema) não notavam a minha presença”.
O lazer de Bily é escrever poesias no muro de sua “casa” o cinema abandonado.

Na rua frente do prédio do antigo Jandaia atualmente existem três casas comerciais. “A Kampana”, ( que há 70 anos vende utensílios domésticos, Bete Cat Tecidos e Confecções e Tanila Modas.).
Na frente do antigo cinema, funciona três lojas: Bete Cat, Tanila Modas ( lojas de confecções) e A Kampana ( loja de utensílios domésticos).

A proprietária da loja “ Tamila Modas” lembra que já foi vendedora de balas na porta do cine Teatro Jandaia, na época dos tempos áureos do cinema “sinto muita tristeza quando comparo os tempos áureos do cinema e vejo hoje a total decadência”. Questionada se pagava aluguel do espaço ela respondeu: “A posse da loja foi passada através do pagamento de “luvas”. Paguei para ter posse do local”. O abandono do cinema é tanto que os comerciantes se uniram, dividiram as despesas e taparam a frente do cinema com cimento para evitar que marginais penetrassem no interior do prédio.

Rex Schindler, diretor e produtor de filmes defende a recuperação do antigo cinema. Para ele, o governo deveria intervir desapropriando os herdeiros do prédio abandonado e transformando o Jandaia em um Centro Comunitário e Cultural, educando crianças na prevenção da prostituição infantil. O local poderia ser transformado em escola de teatro, música, e outros eventos culturais. “E inadmissível que se revitalize o Centro Histórico e o Cine Jandaia não esteja incluído.”

O arquiteto Adolfo Cursino, assessor da diretoria do IPAC, disse que existem alguns critérios para o tombamento e o prédio do cine Jandaia não atende aos requisitos.“ Para ser tombado o prédio tem que ter uma arquitetura relevante e fazer parte de um conjunto arquitetônico. O prédio do Cine Jandaia não está localizado na área tombada pela Unesco em 1985 como patrimônio da Humanidade.”

Jorge Roriz 2007