O aniversário de Pernalonga e o banimento das armas de fogo

O aniversário de Pernalonga e o banimento das armas de fogo

Rogério Baptistini Mendes

Uma celebridade dos desenhos animados comemora aniversário neste mês de julho. O coelho Pernalonga, cuja primeira aparição teria acontecido em A Wild Hare (Uma Lebre Selvagem), completa 80 anos e sua imagem tem servido para alimentar maquinações nas redes sociais.

No mundo concreto, os produtores da série de animação Looney Tunes, na qual ele é destaque, informam que baniram a utilização de armas de fogo pelos personagens, mas não a violência, que é marca da relação de Pernalonga com Hortelino, conforme noticiou o jornal The New York Times em sua edição de 29 de maio.

O octogenário aniversariante evoluiu do coelho feliz, caçado pelo Senhor Porco, numa animação de 8 minutos lançada em abril de 1938 sob o título Porky’s Hare Hunt (Caça às Lebres de Porky). No episódio, há a referência ao espírito que animou a revolução da independência estadunidense no comportamento autodeterminado de Pernalonga. Perseguido o tempo todo, ele demonstra um certo prazer com o sofrimento que impõe ao porco. E este é um dos traços que parecem caracterizá-lo. Além, é óbvio, de sua esperteza e de seu comportamento despreocupado.

Esperto, despreocupado e, de certa forma, sádico, Pernalonga foi a estrela de um desenho animado de enorme sucesso. O único personagem que o derrotou, curiosamente, foi uma tartaruga de nome Cecil. E isso em apenas 3 únicos episódios na década de 1940.

Sobre a trama que envolve a imagem de Pernalonga, ela começa com um “meme”, termo que no mundo da internet se refere a imitação que se propaga rapidamente. Ele apareceu durante este período de pandemia e é uma imagem retirada da animação A Wild Hare, alterada para retratar o coelho com a foice e o martelo que simbolizam o comunismo ao fundo. Não se sabe quem o criou, mas a sua rápida propagação nas redes sociais alimenta teorias diversas e até algum debate sobre esquerdismo e doutrinação.

Mais do que discutir conspirações fabricadas no universo virtual, o aniversário de Pernalonga pode servir para recolocar o tema do estímulo à violência no centro da reflexão social. O simpático personagem, que na Segunda Guerra animou o espírito norte-americano e, ao que consta, enfrentou Hitler em um dos vários episódios em que aparece, é inegavelmente o protagonista de enredos que entretêm a partir de situações agudas. Fora da ficção, a maioria delas causa repulsa. E isso merece consideração.

É óbvio que não se pode atribuir a um simples desenho animado, aos personagens e às situações apresentadas, o comportamento violento de uma geração. A socialização é um fenômeno complexo, dependente de vários fatores. Pernalonga não faz mal às crianças. O problema é uma sociedade que naturaliza a violência, o emprego de armas para causar dor e sofrimento ao adversário. E que ri com isso.

No ano passado, nos Estados Unidos, a terra de Pernalonga, mais de 38 mil pessoas foram mortas por armas de fogo. Destas, 207 eram crianças menores de 11 anos, enquanto 762 eram adolescentes. No Brasil, dados de 2017, apontam que, naquele ano, as mortes por armas de fogo ultrapassaram 47 mil. Faz todo o sentido, portanto, que os produtores da atual temporada da série de animação Looney Tunes, que tem no aniversariante do mês o principal atrativo, decidam por banir a aparição de armas de fogo. Revólveres e espingardas não aparecerão nas mãos de Hortelino. É, talvez, a aceitação de que a crianças não devam ser expostas aos objetos como se eles fossem inofensivos.

A construção de uma cultura de paz, baseada no respeito à vida como valor fundamental, certamente não sofreu prejuízos com os desenhos de Pernalonga, mas ganha um presente do aniversariante. No momento em que governantes defendem o armamento da população civil, uma simples série de animação optar por bani-las sinaliza ao menos a possibilidade do debate.

Feliz aniversário, Pernalonga!

Rogério Baptistini é professor de Sociologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.