Jorge Roriz – Jornalismo de Excelência

Subprocuradora Bolsonarista nega os benefícios do uso de máscara contra Covid

A subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo, rejeitou dois pedidos para investigar o presidente Bolsonaro e, no embasamento da decisão, contrariou o consenso da comunidade científica mundial sobre o uso de máscaras como proteção contra Covid.

O PT e PSOL pediram a investigação depois que o presidente Jair Bolsonaro participou de atos com apoiadores sem usar máscara, como determina leis federal e estaduais. Um em maio, no Rio. O outro, junho, no Rio Grande do Norte, quando Bolsonaro chegou a tirar a máscara de uma criança que carregava no colo.

Os dois partidos ressaltaram que houve infração de medida sanitária preventiva e crime de perigo para a vida. Nesta terça-feira (17), a subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo, se manifestou sobre os pedidos de investigação.

Apesar de a necessidade do uso de máscara ser consenso na comunidade científica internacional, e uma recomendação planetária da Organização Mundial da Saúde como forma de evitar a transmissão do vírus e salvar vidas, Lindôra afirmou que “em relação ao uso de máscara de proteção, inexistem trabalhos científicos com alto grau de confiabilidade em torno do nível de efetividade da medida de prevenção”.

Que “não é possível realizar testes rigorosos, que comprovem a medida exata da eficácia da máscara de proteção como meio de prevenir a propagação do novo coronavírus”.

Lindôra disse ainda que “os estudos que existem em torno da eficácia da máscara de proteção, portanto, são somente observacionais e epidemiológicos. Dessa forma, não há, nem haverá pesquisa com alta precisão científica acerca do assunto”.

E que “o presidente da República, ao participar dos eventos referidos pelos noticiantes, não havia sido notificado para se sujeitar a qualquer das medidas mencionadas acima, mesmo porque, na ocasião, não estava doente, nem apresentava sintomas da Covid-19”.

Infectologistas consideraram a argumentação da procuradora absurda e leviana. Eles afirmam que não há nenhum suporte teórico na literatura científica que diga que máscara não tem benefício no contexto da pandemia da Covid. Pelo contrário, os especialistas afirmam que as máscaras são indispensáveis como barreira para a transmissão do vírus.

“Há alguns equívocos. O primeiro é imaginar que o indivíduo que é assintomático não transmite a doença. Esse é um equívoco claro, e a gente tem dados que mostram que, sim, os indivíduos assintomáticos podem transmitir a doença. Com o indivíduo que usa a máscara, se eventualmente estiver infectado, a gente diminui o risco de que ele transmita o vírus a quem está ao seu redor. E o indivíduo que usa a máscara não estando infectado é um indivíduo que se protege, uma vez que a máscara vai diminuir a chance de que ele seja exposto ao vírus caso esteja próximo de alguém infectado”, disse o presidente do Departamento de Imunização da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Marco Aurélio Sáfadi. “Dizer que máscaras não têm efetividade é um argumento no mínimo leviano, uma vez que a gente tem visto de forma muito contundente em todos os países onde esse vírus circula que as máscaras têm ajudado, sim, a diminuir o risco de exposição a esse vírus.

“De onde saiu que a máscara não tem comprovadamente eficácia? Não há essa referência. Todos os estudos mostram que, sim, há benefício no uso da máscara”, explica o médico Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. “Tem 21 estudos que analisaram o impacto do uso das máscaras na população. Em todos esses estudos, o que se observou foi que todos eles mostraram o impacto benéfico do uso das máscaras, sob todos os aspectos. Não há, na literatura, nenhum suporte teórico que diga que máscara não tem benefício no contexto da pandemia da Covid.”

Fonte: Jornal Nacional